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Devido aos mais variados traumas de infância que serão abordados num outro post, desenvolvi aquilo que se chama de síndroma de Espanha-nem-bom-vento-nem-bom-casamento. Barulhentos, sem modos, gastronomia duvidosa, cidades em tons de tijolo, enfim… um viva à dinastia de Bragança, que nos salvou do jugo Filipino.
Mas depois fui a Barcelona. E apaixonei-me pelo modernismo catalão. E só posso concluir que, Barcelona não é Espanha… Barcelona é Catalunha! Só assim consigo evitar a minha própria dissonância cognitiva.
Hei-de lá voltar, para assistir a um concerto no Palau de Música Catalana, para provar todos os sumos do Mercado da Boquería, para me voltar a perder no Parc Güell, para mais uma vez pernoitar no Silken Diagonal junto à torre Agbar em plena semana do International Gay and Lesbian Festival in Barcelona , e para descer de novo o teleférico desde Montserrat.
Tarifas da Vueling, venham a mim!

Fechámos para balanço, para recuperar o fôlego. A velocidade de cruzeiro está longe de ser atingida, mas a vontade de escrever impera.
O que cabe em 45 dias? é a pergunta que se impõe.
Desmarquei uma operação e não senti remorsos; recebi uma bolsa da Academy of Marketing para ir ao colóquio doutoral em Leeds; cortei o cabelo bem curtinho; tentei convencer a cara-metade – sem sucesso – a não rapar o cabelo; voei até Marraquexe; apaixonei-me pelo estilo de vida marroquino; pernoitei numa riad; subi a pé um rio junto às montanhas Atlas com o Ali, um habitante de uma vila berbere, e o seu pastor-alemão Lulu; sentei-me no chão, para saborear com as mãos a melhor tajine da minha vida, cozinhada pela Fátima, irmã do Ali, enquanto discutimos política e religião;
partilhei um hamman com o amor da minha vida, onde fomos esfregados, ensaboados e argilados, antes de passarmos a uma massagem ayurvédica enquanto o outro saboreia um chá de menta; quase que me perdi num souk; andei de caleche e fui enganada por um marroquino; fiz uma tatuagem de henna na perna e fui enganada por uma marroquina; reflecti sobre a minha vida enquanto ouvia as orações vindas de um megafone às 4 da manhã; quase que perdia um avião em Madrid, mas depois de muito refilar lá conseguimos embarcar; assim que pus um pé em Lisboa, o meu sistema digestivo queixou-se de tanta tajine, pastilha, harira e couscous que foi alvo;
tentei convencer alguém a não tirar a carta de mota; aprendi algumas coisas com mais uma intensa quinzena de aulas; combinei com o Faria, meu colega de doutoramento, que irei visitá-lo a Moçambique um dia destes, dado que se prontificou a ser o nosso guia privado; levei a Kim e a Ah Bo, duas amigas chinesas, a molhar os pés à praia do Tamariz; servi-lhes bacalhau com broa e batatas a murro, figos, cerejas, morangos, brigadeiros e ovos moles de Aveiro, mas o que a Kim gostou mesmo foi da sangria de espumante; depois de percorrermos Sintra, e com o jet lag a bombar, ainda ouvimos uns acordes de guitarra portuguesa durante ensaio para o concerto da Mariza na baía de Cascais; ainda nesse dia, e como os acordes nos abriram o apetite, lá fomos os dois, a minha cara-metade e eu, ouvir fado junto ao mar, com os pés enterrados na areia e os olhos postos nas estrelas;
percebi que não valia a pena convencer alguém a não tirar a carta de mota e comprei-lhe um blusão e umas luvas para se proteger; apresentaram-me um contrato que estava prometido desde Setembro de 2008; informaram-me que, afinal, as condições tinham mudado, pelo que tive uma oportunidade de colocar a inteligência emocional a funcionar e escrevi cartas para as mais altas instâncias, questionando o sucedido; fui almoçar a uma tasca com a Kim, Ah Bo, Lin, Wang e com a brasileira e simpatiquíssima Marluci, e aprendi que mão-de-vaca (yach!) é um prato óptimo para as rugas, porque tem muito colagénio; combinámos uma ida ao Freeport para a próxima vez que cá estiverem, porque a Ah Bo gastou 300€ em polos da Sacoor; sonhei com uma viagem a Macau, Hong-Kong, Pequim e, porque não?, Japão… e fi-las prometer que não me vão dar sapos nem outras coisas esquisitas ao almoço;
adiámos a canoagem na praia da duquesa porque, em pleno mês Junho, chovia a potes; decidi que ia pedir transferência para outra faculdade; marquei reuniões; decidi que ia ficar na minha faculdade; tive um convite para ser co-orientada (não devia ser ao contrário?); espetei a ponta de uma faca no pulso ao cortar melancia e desmaiei só de pensar que me ia esvair em sangue; recuperei a consciência sem saber onde estava e sem ouvir o que se passava, o que me fez relativizar, uma vez mais, as preocupações da vida;
arrependi-me de ter comprado um blusão e umas luvas e tentei convencer alguém a não tirar a carta de mota, mas percebi que já era tarde demais; no dia seguinte, apanhei o mesmo avião que o Paulo Pedroso (felizmente, o lanche não foi canja de miúdos) e fui apresentar o meu projecto de doutoramento à Academy of Marketing em Leeds, onde conheci um punhado de gente bem divertida (prometi ao Peter e ao Réne que vou à Escócia este ano, prometi à Maria que vou à costa de Amalfi este ano, prometi à Arpita que vou à Índia quando acabar o doutoramento, prometi a todos eles que têm um quarto disponível quando quiserem conhecer Lisboa); reencontrei, em Leeds, um ex-colega de mestrado e confidenciei-lhe que partilho do seu sonho de viajar 6 meses pela Europa; andei descabelada, por corredores de uma residência universitária, à procura de um adaptador para o meu secador de cabelo (a Franzciska, com a sua eficiência alemã, salvou-me o dia);
reuni-me com o meu orientador e, mais do que nunca, tive a certeza que estou no sítio certo, assim que começámos os dois a divagar com os nossos sonhos e projectos; reencontrei um ex-colega de licenciatura e estivemos mais de hora e meia a falar sobre as nossas vidas; comi pizza em três refeições seguidas, uma das quais quando voltei a encontrar o meu grupinho do mestrado, em mais um jantar onde reinou a amena cavaqueira e onde se partilharam segredos; combinei com alguns deles que iremos fazer teatro; fui aos saldos com a minha mãe e deixei-me ser mimada;
visitei a minha avó para celebrarmos mais um aniversário (onde é habitual darmos os parabéns a todos os que existem porque a minha avó nasceu), ao sabor de uma fatia de bebinca; só porque sou cliente Volkswagen, ganhei um bilhete duplo para o Optimus Alive e fomos com os cunhadinhos ao dia de Black Eyed Peas (não ficámos para Dave Matthew’s Band, porque já passava da meia-noite e o Vitinho mandou-nos para a caminha);
passei uma manhã na praia a jogar com raquetes e no dia a seguir concluí que já não tenho idade para estas coisas; mantive a calma quando uma tiazoca raspou o seu Beetle na minha traseira só porque não nos viu passar; preenchi uma declaração amigável pela 1ª vez, e decidi que nem vou mandar arranjar porque o raspão dá um ar mais racing ao carro; tive febril, com 37,5ºC, e comecei logo a pensar que tinha apanhado a gripe A em Leeds; estou com uma conjuntivite; resolvi voltar a escrever nos Cardigrilos.
Ufa! :)
Em contagem decrescente para a 1ª apresentação, cá estou eu. Viajei num planador até Bordéus e depois noutro equivalente até Nantes. Todos falam em francês comigo e eu aqui ando a carpir as mágoas de ainda não saber dizer muito mais do que Je ne parle pas français. O idioma parece-me simples e acho que com alguma persistência lá chegaria. Mas por enquanto, terei que me desenvencilhar e fazer figas para encontrar franceses que também falem inglês.
O hotel tem wi-fi gratuito e o Skype está a funcionar entre utilizadores registados. Ainda não consigo telefonar para telefones fixos, mas enquanto puder comunicar com o meu Dio, fico mais animada. E não é só ouvi-lo mas vê-lo também, graças ao pikanino Eee!
Nada de mais interessante a assinalar, apenas que passei a manhã assim… e que agora ando a girar ao contrário, mas para ver se o tempo passa um bocadinho mais depressa.


De Bergen seguimos para Flåm de ferry, pelo Sognefjord (dizem eles que é o fiorde dos sonhos e não estão muito longe da verdade). Eu queria muito ir ao parque nacional de Jostedal, para escalar o glaciar. Mas este tipo de actividades só se realiza no verão, pelo que acabámos por desistir da ideia (até porque nos pareceu complicado alugar um carro naquelas bandas e o Bus também não estava a funcionar).
Mas a chegada a Flåm fez-nos esquecer tudo o resto! Uma típica cidadezinha, onde tudo parece ter sido pensado ao pormenor. Ficámos alojados por duas noites na pousada de juventude, uma das mais bonitas onde já estivemos, com direito a vista para as cascatas e tudo! Conhecemos um casal de franceses que mal saía da sala de estar (por estar sempre a chover, diziam eles) e um casal de australianos vindos de UK que estavam no início de uma viagem de 3 meses pela Europa.
De facto, a chuva miudinha era muito frequente, mas alternava com o sol. Ou seja, o ideal era decidir sair quando está a chover, porque muito em breve o tempo iria melhorar.
No dia seguinte, fomos até Gudvangen de ferry pelo Nærøyfjord, um dos fiordes mais estreitos (daí o narrow no nome). Nem tenho palavras para descrever este percurso… é, sem dúvida, um dos mais bonitos.
Regressámos a Flåm de autocarro, por ser mais económico. Da parte da tarde, fizemos uma caminha até chegarmos junto à cascata maior, a Brekkefossen. Lá de cima, ainda tivemos a sorte de avistar um arco-íris fenomenal!
No último dia, ainda fomos fazer uma outra caminhada em Flåm, antes de apanharmos o comboio para Oslo. O primeiro troço do percurso, até Myrdal, é conhecido por Flåmsbana e é de cortar a respiração. Em Myrdal nevava, e a paisagem branca foi uma constante na primeira hora do percurso para Oslo.
Que saudade que eu já sinto…

De Stavanger, apanhámos novo vôo para Bergen, a cidade da chuva. Curiosamente, quando chegámos ao início da manhã estava bastante sol e calor, pelo que aproveitámos para tirar bastantes fotos, nomeadamente da vista da cidade, após termos subido ao monte Floyen de funicular.
Ficámos alojados no Klosterhaugen Guesthouse, bem junto ao centro da cidade. O dono é bastante simpático e esteve algum tempo a conversar connosco, os primeiros portugueses que albergava. O maior senão é ter uma casa de banho partilhada, o que pode gerar alguns conflitos com clientes mais ansiosos. Estava tudo impecável e é notório que o Kristian gosta de receber pessoas em sua casa: todos os pormenores estão pensados, desde a chaleira eléctrica de chá no quarto, à variedade de pacotinhos de chá e café, loiça, champô, gel de banho, espuma de barbear, detergente para que possamos usar as máquinas de lavar e secar roupa… enfim, é quase como se estivéssemos na nossa própria casa.
No dia seguinte fizemos a excursão Hardanger in a nutshell. Estávamos muito indecisos entre alugar um carro ou fazer a excursão, dado que a segunda não nos dá a flexibilidade que gostamos de ter. No entanto, a agência fechava às 16 horas, pelo que seria impossível visitarmos tudo. As paisagens são indescritíveis, por onde quer que passamos é impossível não nos apaixonarmos pelo que vemos!
Quando regressámos apanhámos uma bruta molha, com granizo e tudo! Mas passar por Bergen e não apanhar chuva, é como ir a Roma e não ver o Papa… Algumas informações adicionais sobre Bergen aqui.

Preikestolen era a nossa cereja em cima do bolo. De Oslo apanhámos um voo interno da SAS para Stavanger. Ficámos admirados com as tarifas: viajar de avião não é muito mais caro que viajar de comboio, sendo que na 1ª opção demorámos 1 hora e na 2ª demoraríamos cerca de 8 horas.
Stavanger é uma cidade portuária com muito pouco para ver. Ficámos alojados nos apartamentos Karlsminnegate, a cerca de 10 minutos de distância a pé (com mochilas e a subir, mais parece meia hora…) desde a paragem do Flybussen. Gostámos muito deste alojamento: num local muito calmo e com toda a logística necessária, nomeadamente para preparar a refeição para o dia seguinte. Durante a tarde ainda fomos visitar a cidade. Como é pequena, foi complicado encontrar um supermercado aberto, pelo que optámos por fazer compras no 7 Eleven do centro e comprar jantar num restaurante Thai: Chicken Kung Pao e sopa de brócolos feita em casa.
No dia seguinte, logo pela fresquinha, fomos apanhar o ferry para Tau, onde teríamos que apanhar o autocarro para Preikestolen. Nesta altura do ano há apenas uma partida de manhã e um regresso à tarde e apenas ao domingo, pelo que não podíamos bobear…
Fizemos uma longa caminhada de 3 horas! Por entre barrocos e quase sempre a subir, fomos percorrendo os quase 4 km de distância, com o objectivo de chegar ao púlpito. Os receios de chuva, neve, água, caminhos mal sinalizados, etc., desapareceram num ápice. E estarmos rodeados de natureza selvagem foi, em si, uma experiência inesquecível.
Ao chegar ao topo, fizemos como as outras dezenas de maluc… err… turistas e sentamo-nos junto ao precipício. Asseguro que as fotos são bastante mais assustadoras do que estar ali sentada naquela paz imensa. Depois de despachar as nossas sandes e muffins de chocolate, decidimos regressar, dado que nos esperavam mais 3 horas de caminhada e um autocarro para apanhar. Não andámos com pressa, mas também não dá para molengar. É chegar, ir, estar lá uns 40 minutos e regressar com calma.
Nesta área, também seria interessante fazer um passeio de ferry pelo fiorde Lyseboth. Existe uma outra localidade com uma pedra suspensa no ar, cujo nome não me recordo, que embora não tenhamos ido (transporte só no verão), recomendamos vivamente.

Chegámos a Oslo a meio do dia. Com as mochilas às costas e a capa com o plano da viagem, apanhámos o Flybussen (autocarro que liga os aeroportos ao centro das cidades) rumo ao Anker Hostel (estilo pousada de juventude), onde tínhamos reserva feita. A estadia na Noruega não barata, pelo que nos preocupámos em procurar antecipadamente qual era o alojamento com melhores tarifas.
Já no Anker Hostel, recebemos uma boa notícia: iríamos ser transferidos para o Anker Hotel da Best Western, dado que reservámos um quarto duplo com pequeno-almoço. Fica aqui a dica… reservem pelo booking.com no Anker Hostel e, provavelmente, serão transferidos.
Ainda nessa tarde aproveitámos para dar um passeio a pé pela cidade. Ficámos no bairro mais multi-étnico da cidade, coisa que percebemos só depois de reparar que todo o resto é mais povoado por gente a dar assim para o pálido. A cidade é muito calma e facilmente se chega a pé aos principais pontos de visita. Para os mais preguiçosos, há a possibilidade de apanhar um tram (eléctrico) que atravessa a cidade.
Foi o que fizemos no dia seguinte para visitar o Vigeland Park, conhecido pelas suas enormes estátuas. Almoçámos nas escadas da marina de Oslo, tal e qual como fazem os nativos num dia de sol. Depois, mesmo ali ao lado, visitámos a câmara municipal. Por fora não convence, mas por dentro vale a pena! E então se passarem AC/DC e Barry White na sala principal nem se fala…
A alimentação não é assim tão cara como julgávamos. Tínhamos ouvido/lido histórias de várias pessoas que diziam que os preços são exorbitantes… Mas escolher vegetarianos ou italianos é sempre uma boa opção que certamente não excede os 10€ por pessoa. Mais dicas para viajantes com orçamentos reduzidos aqui, aqui e aqui.

Os posts que se seguem deveriam fazer parte de um novo blog que andamos a preparar, dedicado apenas a viagens. No entanto, como já sei que o tempo vai passando e não há meio de arrancarmos com o outro, vamos fazer uma série de posts com algumas fotos. Ao todo, foram 10 dias de mochilas às costas, passados no meio da natureza, com dormidas em guesthouses e pousadas de juventude, onde fomos conversando ocasionalmente com outros viajantes. A vontade de conhecer este destino era antiga e a promoção da TAP com um vôos a menos de 150€ foi o pretexto ideal.
Soube a tão pouco… e assim sempre dá para matar algumas saudades. :)

Comecei a acompanhar estes castiços, a Tanya e o Rafael, há uns tempos – quando ainda tinha o outro blog – e nunca mais os deixei. No início, foi a fase das dúvidas. Faziam-me recordar um colega que tive em tempos, que depois de 2 anos numa multi-nacional, resolveu rumar para a Índia. Escrevi-lhe este comentário, que acabou por virar post, e agora que a viagem começou, não passo um dia sem ir cuscar as suas novidades. Afinal, decidir ir à aventura pedalando por aí só pode ser coisa de gente corajosa e eu gosto sempre de acompanhar!
Roubei a foto do blog, porque simplesmente não resisto ao desenho da Anita Canita…

Estive na semana passada em Praga, numa formação denominada “Introduction to the ESCB“. Trata-se de um rol de plenários e workshops sobre as várias funções dos bancos centrais, enquanto parte do ESCB e do Eurosistema, administrados por quadros de vários bancos centrais a colaboradores que tenham, teoricamente, sido admitidos recentemente. A intenção é a indução do espírito europeu nos newcomers. Éramos 30 de cerca de 15 nacionalidades diferentes, sendo o inglês o modo de comunicação definido.
É curioso constatar que apesar dos diferentes backgrounds a nível de formação académica, experiência profissional, escalões etários, etc (para não falar das óbvias diferenças culturais), há nitidamente elos que unem as pessoas e que servem de veículo de comunicação e de entrosamento. A pivo (em checo) foi, indiscutivelmente, o veículo mais importante, o principal tema de conversa e o factor decisivo na criação de laços entres os participantes.
Há cerca de 7 anos atrás, em Budapeste, o meu primo disse-me, de forma premonitória, que beber um bom vinho num almoço de negócios, saber apreciá-lo e ter uma opinião fundamentada sobre o tópico seria uma mais valia em termos de integração.
Em Praga, pude comprovar a veracidade daquelas palavras – foi sem dúvida a pivo a base de construção do espírito europeu. Esperemos que Monsieur Jean-Claude Trichet não esteja muito imbuído desse espírito nas suas próximas decisões…
Devia haver uma autoridade do turismo que nos proibisse de regressar a um destino onde fomos felizes. A recordação da primeira visita fica marcada como uma tatuagem. Visitas posteriores acarretam o risco de não gostarmos do resultado final do desenho, se o tatuador é amador e resolve empoleirar recordações.
Regressei a Praga 3 meses depois de lá ter estado pela primeira vez. Em Dezembro foi uma experiência mesmo muito boa: uma cidade bonita, animada pelo mercado de Natal, dias de neve, dias de sol, muito passeio, aquele vegetariano perto do relógio famoso, o Coffee Heaven, os bilhetes de avião a preço da chuva, o Ibis Karlin por 39€, o Prague Card usado até ao limite, os bonecos de neve, aquele concerto por 40€ numa capelinha minúscula, o jantar com os americanos, o pôr-do-sol às 3 da tarde, aquele croissant com Nutela e o chá de menta no café escondido, as botas que comprei por 15€, as italianas esquisitas da sapataria, o gato que veio ter connosco em Vysegrad, o almoço no restaurante com os pedreiros da obra ao lado, a ponte Karlov que não atravessámos, o Bus para o aeroporto, a garrafa de vinho para ser aquecido que não passou no controle, as roupas de neve, o nosso amor. Para mim, Praga foi tudo isto. Em Dezembro.
Praga em Março foi uma tatuagem empoleirada. 1 semana de saudades acumuladas, muita afonia e tosse depois, fui acompanhada por um melting pot de antibiótico, anti-inflamatório, anti-pirético, anti-tússico, e quando lá cheguei ainda me foi administrada uma dose de anti-emoção. Com reforço no dia seguinte.
Não devia ser permitido voltar a uma cidade onde fomos felizes. O nosso cérebro reconhece a dissonância e não se consegue desenvencilhar convenientemente. O vegetariano continua a servir bem, o Coffee Heaven também, descobrimos uma pizzaria na Praça Venceslau, atravessámos a ponte Karlov enquanto bebemos um chocolate quente, no hotel foram rudes connosco e o taxista cobrou-nos mais 200 coroas (cerca de 8€) do que era suposto. Os pontos altos da viagem? O facto de ter sido o banco a pagar as viagens tanto de um como do outro. As minhas sandálias novas por 10€. Os alpes vistos de cima. O regresso.
Praga ficou com o carimbo de uma fase, que dura desde Abril, de altos e baixos. Linear, com alguns momentos de alcatrão tipo A10, mas também com alguns obstáculos, lombas, buracos e pedras. Agora sinto que cheguei a uma rotunda e estou à espera de espaço para entrar. Venho do túnel do Marquês, às 9 da manhã e sinto a claustrofobia do trânsito, o ar fresco que há muito que não circula, o semáforo fechado. Tento avançar lentamente, mas não sei o meu destino, chego à rotunda e mantenho-me às voltas. Qual o melhor caminho? Sigo em direcção ao Tejo para sentir a brisa no meu rosto? Volto para trás e percorro a segurança do caminho já conhecido da A5? Permaneço na confusão e sigo a manada pelo Saldanha, sem saber ao certo porquê, apenas porque me sinto ridícula e não quero repetir a volta?
Encosto na Avenida e desligo o carro. Tenho a cabeça cheia e o depósito na reserva. Ponho os phones nos ouvidos e começo a andar. Ando, sem destino, ando para cansar os músculos, para sentir uma dormência nos pés, que mate todas as angústias, ilusões, desilusões, apertos e expectativas, para sentir o conformismo do penso que cobre as bolhas que teimam em não passar. Ando a pé porque assim sou eu. Porque gosto de ouvir a música a estoirar os tímpanos, o vento na cara, gosto de sentir-me eu, só eu, a percorrer a Avenida, acompanhada pelos meus pensamentos. Por vezes esqueço-me de ser como sou. Crio novos mundos, invento personagens. Descubro cavaleiros de armadura em pinturas que afinal são difusas. E quando me lembro de colocar os óculos, fico desorientada com a nitidez da realidade.
Não sei por onde vou. Decido ser feliz, seja qual for o caminho a seguir. Troco os óculos de ontem, coloco umas lentes de contacto novas e sigo o meu caminho. Mais bonita do que ontem, para amanhã ser mais feliz do que hoje.
Estarei a pedir demais?

Béjar deixou-nos com apetite para mais neve. A Rita falou-nos na hipótese da Serra da Estrela e nós questionámo-nos… porquê ir para Espanha quando temos boas condições a 2 horas e picos de distância? O Dio tirou a 6ª feira, sob pretexto de um sábado que foi passado na intensa labuta, e lá fomos nós. Motivados, não só alugámos material completo como pedimos 2 horas de aulas. Se é para aprender, mais vale não ficar a chorar o dinheiro… Já tínhamos tentado por nós próprios em Pas de La Casa e o resultado não foi muito bom.
A manhã foi para a habituação aos skis. Alguns trambolhões mas nada que me demovesse. Estou segura que vou gostar de andar por aí a deslizar, nem que para isso tenha que passar por uma fase de nódoas negras. Depois do almoço, vieram as sessões pedagógicas. Sim, porque não posso falar em andragogia quando eu parecia uma miúda de 12 anos numa aula de educação física.
O primeiro instrutor, foi 5 estrelas. Se lá forem, peçam para ter aulas com o Nuno Robalo. Subimos pelos meios mecânicos para descermos uma pista verde. Com uma ou outra queda minha, mas lá fomos. Quanto ao meu par, só se espalhou quando, montado no saca-rabos, resolveu olhar para trás para ver como eu me estava a sair. Viu-me estatelada no chão e, como marido solidário que é, quis partilhar o momento comigo. :)
Na hora seguinte, mudámos de instrutor. E, se não souberem mesmo nada da arte de esquiar, nem pensem em ter aulas com o tipo meio careca com ar de quem chuta p’ra veia (não me deixaram escrever o nome dele… mas se tiverem mesmo muita curiosidade, enviem-me um mail sem o D saber), porque senão estão bem tramados. Esperem uma sessão de berros, tipo aula de educação física no 6º ano com um professor mal formado, que vos trata como se tivessem 5 anos e fossem uns falhados. Para não alongar o discurso sobre esta parte menos feliz do dia, digamos que me recusei a continuar a aula naquelas condições. Armou-se em sonso, não tivemos pachorra e fomos re-haver o dinheiro da aula.
O final do dia estava a chegar e fomos acalmar os ânimos para a pista da Torre… mas com as pás! Ah! Agora sim, falamos de diversão a sério!
E assim, sem tirar nem pôr, mais um item da lista riscado: Escorregar com as palas resbaladeras se o ski não correr bem. Para o ano há mais.
:)

Tenho uma relação amor-ódio com o café. Adoro o seu aroma e o sabor encorpado, mas… é areia demais para o meu camiãozinho e, como fico de tal modo acelerada, com o coração literalmente aos saltos, opto por evitá-lo. Quando era nova (!) e fazia noitadas (para estudar para os exames, claro), apostava no chá preto, a escaldar, sem açúcar e com uma pinga de leite. Se precisasse de muita inspiração, fervia o chá com uns quantos cardamomos e cravinhos.
Nos últimos tempos optei por cortar com a cafeína por completo. Mas não consigo dizer que não a algumas bebidas em ocasiões especiais… Quando estivemos em Praga, descobrimos uma coffee-shop impossível de resistir, cujo nome não engana: Coffee-heaven. E todos os dias, saíamos na estação Mustek, mesmo junto à Praça de Venceslau, para nos deliciarmos com novos aromas. Um dia foi uma mistura de café, leite, chocolate branco e gengibre, noutro dia o acompanhamento de cardamomo, cravinho e canela… O outro guloso escolhia café com leite, caramelo, natas, chocolate… Mmmmmmm… Blueberry muffins, torradinhas integrais com sementes de sésamo e queijo de cabra, folhados de morango… Mmmmmmm…
Para matar saudades, hoje preparámos algo que nos aquecesse a alma. Duas colheres bem cheias de mistura de cereais (cevada, centeio e chicória) ou café para os corajosos, uma pitada de gengibre em pó, 1 colher de sobremesa de caramelo líquido e açúcar a gosto. Bater com uma colher de leite até formar uma pasta homogénea. Juntar àgua a ferver e leite bem quente até 2/3 de um copo alto. Encher o remanescente com chantilly e vermicelli de chocolate. Beber de preferência com uma companhia doce, que aqueça o coração… :)


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