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Para quem não se lembra, o blog começou num cinzento mas mítico dia em que arregacei as mangas e comecei a trabalhar na tese de mestrado. Nesse dia, vislumbrava como data de entrega o dia 28 de Setembro de 2007. Entretanto, o primeiro adiamento foi pedido, dado que conciliar a vida profissional com um trabalho que só depende de nós próprios não é tarefa fácil!
Para contextualizar os leitores mais recentes, devo referir que a dissertação a que me refiro diz respeito ao mestrado em marketing, iniciado em Setembro de 2005. Ainda antes das modernices de Bolonha, fomos a última turma a receber o programa à moda antiga.
A primeira parte é simples… 1º ano curricular, em que apenas temos que estar presentes nas aulas, fazer bons trabalhos de grupo e estudar um pouco para os exames. O mais difícil são, para além de estar presente nas aulas 6ª à noite e sábado de manhã, os trabalhos de grupo sábado à tarde e os respectivos T.P.C. de domingo. Chegados ao 2º semestre, já ninguém se aguenta! Desta partilha de sacrificios, ficaram 3 bons amigos.
Depois, vem a parte mais desafiante. Escolher um tema que gostássemos de investigar e pôr mãos ao teclado. A autonomia é a nossa pior inimiga – o mais difícil é manter a motivação e ter a força de vontade necessárias para avançar e terminar. O orientador apenas orienta. E, quando em média demora + de 1 mês a responder, não nos podemos dar ao luxo de esperar – temos que continuar a galgar o caminho. É algo próximo da sensação de estar a partir pedra com um pequeno martelinho.
Entretanto, tive a grande vantagem de ter um tema muito interessante, inicialmente sugerido pelo meu orientador. O objectivo inicial era analisar a adopção voluntária de estilos de vida simples, denominados por simplicidade voluntária. O resultado final foi uma análise sobre a adopção de comportamentos de consumo ambientalmente responsáveis – e qual a relação com o materialismo e estilos de vida de simplicidade voluntária. Pelo meio, propus-me a analisar o impacto de valores como o altruísmo, falta de generosidade e percepção de eficácia do consumo.
Depois de ler e reler mais de 100 artigos publicados em revistas científicas, consegui delinear um modelo conceptual. Construi um questionário que me permitisse testar o modelo e consegui financiamento por parte da minha faculdade para recorrer a uma empresa especializada em marketing research para seleccionar a amostra. Muitas pestanas queimadas em livros de estatística – e com a ajuda preciosa do marido – ficou fechado outro capítulo. E devo anunciar que cheguei a conclusões bastante interessantes!
A aventura de reencher tinteiros para impressão de 7 exemplares (pelo menos foi permitido o papel reciclado, e impressão em frente e verso) durou 3 dias e terminou hoje. Amanhã, 28 de Abril de 2008, é dia de entregar a obra-prima.
Fica a satisfação plena de quem termina algo a que se propôs. O perfeccionismo diz-me que poderia sempre estar melhor do que está. O pragmatismo diz-me que está muito bom e que é preciso avançar para a próxima meta.
Ficou a certeza de que, quando existe determinação, tudo é possível. Mesmo que o tempo corra e passem meses sem que avancemos. Mesmo que o modelo mude mais de 20 vezes. Mesmo que pensemos que não iremos conseguir nunca.
E pronto. Com isto tudo, já lá vão 20 anos sem sair da escolinha… Será que é desta que me livro?
O que é, afinal, o tema da minha tese…
A simplicidade voluntária é um estilo de vida em que se opta por limitar as despesas em bens de consumo. Esta filosofia pode estar baseada em questões ambientais, políticas, religiosas ou, simplesmente, morais. Acontece quando vamos ao shopping ao sábado para comprar 1 livro e pensamos “Mas que raio… Que confusão de gente… Não haverá nada mais interessante para se fazer ao sábado do que andar a ver montras, ansiando por comprar aquele telemóvel que já tem mais um quincagésimo de pixels ou aqueles par de botas que, este ano, ficam tão bem por fora das calças?”
Os que me conhecem bem já estão a ver o que vai sair daqui… Crescer em contacto com um ambiente familiar em que a marca é O mais importante resultou numa vontade de aprofundar, sob a forma de investigação, o que está associado a estes comportamentos.
(Relembrando alguns casos: gel de banho boticário Vs qualquer outra marca que custasse mais do que 10 contos, jogo de magia Vs jogo para playstation, num lar de 4 pessoas é bebida água Solan de cabras, Evian e Vitalis consoante os gostos, entre muitas muitas outras situações…)
O que leva, afinal as pessoas a ser tão consumistas? Estudos (e bom senso, para quem o tem) indicam que indivíduos com elevados rendimentos necessitam de demonstrar os seus atingimentos através de bens materiais visíveis para obterem apreciação, aprovação e respeito de quem os rodeia. Estes bens permitem transpirar status e prestígio sem andar com a declaração de IRS agrafada ao casaco (Paul&Shark, claro). Acreditem que também há quem suspire: UFF! Este ano lá vão mais 4 mil contos para o IRS…
Pior do que isso é não ter rendimentos e querer usar o tal casaco e o tal relógio, que já nos chegou em terceira mão. Mas isso fica para uma outra oportunidade de investigação.
Então, para o comum dos mortais como nós, é preciso trabalhar no duro para podermos comprar aquele Audi Sportback preto (nem que seja a prestações) que andamos a mirar no stand e que põe num chinelo o Série 1 do Manel, porque o nosso tem um nível de equipamento superior. É aqui que começa o ciclo vicioso: trabalhamos muito para comprar estes bens e, para podermos continuar a comprá-los, temos que continuar a trabalhar cada vez mais.
Até ao dia em que acordamos, olhamos em volta e percebemos que temos uma vida desgraçada. Casamento arruinado (se é que chegou a haver coragem e parceiro para nos acompanhar numa vida em comum), “amigos” que estão em competição laboral e material, vida desprovida de sentido. E pensamos “Ora bolas, a vida não é um ensaio de uma peça de teatro… Isto já é a valer!” E, se tivermos 2 dedos de testa, decidimos abrandar o ritmo. Abrandar porque queremos estar com a nossa família, porque nos esquecemos o quanto gostávamos de ler ou de sair para dançar e simplesmente não fazemos isso porque estamos cansados fisicamente e, talvez, um pouco amargurados com a vida.
Voluntary simplicity é isso mesmo. Muitas pessoas optam por reduzir a sua carga horária ou até mesmo mudar de carreira, para se dedicar ao que mais gostam de fazer. Nem que, para isso, exista o trade-off de, como se está a ganhar menos, é necessário consumir menos também. Estamos no topo da pirâmide de Maslow, à procura da Auto-realização, deixamos já a aprovação social e auto-estima para trás.
Esta pode ser uma das motivações principais. Para além dessa, se pensarmos no impacto ambiental, ficamos ainda mais conscientes que estamos a seguir um caminho correcto.
Não percam os próximos episódios…
Angustia prolongada… Sábado bem passado e a tese à espera de ser feita! Orientador e tema escolhidos, começa agora a incursão por caminhos nunca antes desbravados.
O tema: Voluntary simplicity
A data: 28.09.2007
Questões levantadas, estou na fase de leitura de artigos. Tenho que preparar um draft para a dissertação (com cronograma e tudo!) que me sirva de guião. Estou muito motivada com o tema e já comecei a simplificar a minha vida e de quem me rodeia (Cola Siti: 0,29 eur). ;)
Que saudades que eu já sinto da moleza do fim-de-semana…











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