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Éramos quase todos recém-licenciados a entrar para o seu 1º emprego, numa multinacional reconhecida no campo das impressoras, computadores, máquinas fotográficas e, para nosso espanto, servidores e outros equipamentos cabeludos do mesmo tipo. Metade gestores, metade engenheiros. Cada grupo tinha as suas ansiedades e angustias. No final, ficámos quase todos. E, durante 2 anos, partilhámos o mesmo open space, a mesma cafetaria, as preocupações de cada um. No final, alguns foram dispensados, outros passaram à posição de efectivos.

Encontrei a passear na praia um dos que pertencia tanto ao grupo de gestão como ao grupo dos dispensados ao fim de 24 meses, tal como eu. Conversámos um pouco. Soube que, nestes dois últimos anos, fez um MBA na Florida e agora trabalha no ramo da saúde com o pai. Outro, o que tinha mais pancada, passou este tempo pelas índias e regressado há pouco tempo, dedica-se à gestão de unidades de agro-turismo no litoral alentejano. Um dos efectivos, saiu entretanto para ingressar na empresa da marca Nivea e anda entretido a fazer o mestrado. Sobra um outro efectivo – porque dos outros, aqueles que não interessam, ninguém se lembra de falar – que continou na empresa e foi promovido recentemente.

Perguntou-me o que estava a fazer neste momento. E o que iria fazer daqui a 3 anos, quando a bolsa da FCT cessasse. Depois, logo se vê, disse-lhe. E admirei-me com a sinceridade das minhas palavras.

Olho para trás, à distância de 2 anos, quando terminámos aquela etapa e saímos todos de um ponto de partida similar. Secretamente, todos queríamos continuar ali, mesmo que detestássemos a função e toda a empresa soubesse disso, desde a recepcionista até ao director-geral. Afinal, ninguém gosta de ser preterido. Invejámos quem ficou. Tentámos apagar as mágoas, libertámo-nos das amarras e saímos em busca de novas oportunidades.

Agora penso… De todos, quem viveu mais? O que foi ou o que ficou?

Somos incutidos a encontrar um emprego para a vida e, muitas vezes, sentimos a frustração de não o encontrar, seja porque não gostamos do que fazemos, seja por somos mal pagos, ou porque trabalhamos mais horas do que gostaríamos. Ou simplesmente almejamos fazer algo significativamente distinto do que nos ocupa o quotidiano.

Olho para trás e penso que nunca é tarde para nada. O arrependimento tolda-nos a alma. E viver uma vida em função da segurança material quando o que fazemos não nos enche as medidas é desperdiçar aquilo que temos de mais precioso: o tempo.

O tempo passa. Vai passando sem pedir autorização a ninguém. À medida que a idade vai avançando, mais do que conformismo, é importante alcançar a serenidade, saborear o que nos rodeia e deixar de lado as pré-ocupações. Caso contrário, que levamos daqui?

(Estou para ver quanto tempo vai durar este meu estado Zen. Devem ser resquícios das férias… Já só faltam 2 semanas para a EMAC e para ter o meu relatório de progresso do 1º ano pronto. Pronto. Puf! Acho que a plenitude se foi.)

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Defeitos? Tenho uma carrada deles. Alguns, considero que fazem parte do pacote – tento mudar o comportamento, pensando que talvez mudando a minha atitude consiga chegar a bom porto. Para além destes reconhecidos defeitos, tenho outros que, por achar que deveriam ser considerados qualidades, me incomodam ainda mais que os primeiros. Ou seja, em termos genéricos, digamos que o 1º grupo incomoda quem me rodeia, enquanto que o 2º grupo aborrece-me – a mim – de forma solene.

O defeito que mais me chateia é confiar nas outras pessoas. Quem me conhece até poderá estar a pensar que eu sou aquele tipo de pessoa que não dá muita confiança… mas não é bem assim. Quando conheço alguém, parto do principio que essa pessoa é bem intencionada, não tem nada de especial a esconder e está de coração aberto. Só quando noto incoerências, seja no discurso ou na linguagem corporal, fico de pé atrás e mantenho a devida distância.

O problema verifica-se quando, depois de alguma convivência, considero mesmo que aquele indivíduo é sincero. E baixo a guarda. E confio. E falo abertamente sobre os meus planos. E dou a minha opinião. E acredito que estamos a construir uma amizade. E, à medida que o tempo vai passando, vou-me tornando exigente com a lealdade da amizade – tão exigente como sou comigo própria. Espero dos outros o mesmo que ofereço – nem mais, nem menos. E, como acredito que para recebermos também temos que dar, não me importo de se eu a dar o primeiro passo.

Sou assim desde que me conheço. E desde sempre, em mais de 90% dos casos, me desiludi. Mais tarde ou mais cedo, acabo por notar incongruências no discurso (maldita memória de elefante) ou por descobrir que alguém apregoa uma coisa e faz outra (nomeadamente em termos profissionais). E tenho dificuldade em aceitar que me enganei em relação a essa pessoa. Há quem me diga que tenho expectativas muito elevadas. Outros aconselham-me a usar um filtro, a não dar demasiada importância e a não confiar tanto logo no início.

E eu aborreço-me com estes conselhos também. Porque gostava de acreditar que ainda existem boas pessoas neste mundo que me rodeia. Porque acho que se ninguém der o primeiro passo o mundo não melhora e vamos continuar todos a ser mais egoístas e focados no nosso umbigo do que seria desejável. Mas, nestes momentos de desilusão, só me apetece deixar de confiar. E desiludo-me, também, com esta vontade.

Decidi mudar porque acho que está na altura de haver uma renovação. Já não tenho nada a provar.  A nossa antiga morada serviu para dar notícias sobre nós a pessoas com quem não falamos há demasiado tempo. Serviu para mandar umas bocas foleiras quando estava incomodada com algum assunto – era o meu muro das lamentações. Muitos textos foram mal-interpretados e houve situações de silêncios incomodativos com pessoas com quem não era suposto isso acontecer. Mas, pelo que venho observando na blogosfera, parece que é normal que aconteça quando somos sinceros demais.

A partir de agora temos uma casa nova. Acendi um incenso para afastar os maus espíritos, aqueles que me espiavam e depois fingiam que nada sabiam, e venho com uma vontade renovada de continuar a escrever. Posso ter apenas a visita de 1 ou 2 leitores… posso escrever só 1 artigo de vez em quando… a quantidade deixou de ser importante. Este é o nosso lar – um pouco desarrumado (porque somos mesmo assim), mas limpo e organizado sempre pronto a receber visitas.

E seja sempre bem-vindo quem vier por bem! :)

«[...] todas as coisas agradáveis acabam por amargar; todas as flores murcham quando as colhemos, e o amor morre tanto mais depressa quanto é mais retribuído. Por isso o passado parece-nos sempre melhor que o presente; esquecemos os espinhos das rosas colhidas; saltamos por cima dos insultos e injúrias e demoramo-nos sobre as vitórias. O presente parece muito mesquinho diante de um passado do qual só retemos na memória o bom, e diante de um futuro que ainda é sonho. O que alcançamos nunca nos contenta; «olhamos para diante e para trás em procura do que não está ali»; não somos bastante sábios para amar o presente do mesmo modo que o amaremos quando se tornar passado. Quando mergulhamos num prazer, o nosso olhar vai para longe – a felicidade ainda não está alcançada apesar de termos o deleite nos nossos braços. Que mau demónio nos afeiçoou assim?»

Will Durant, in «Filosofia da Vida» (via Notas ao Café)


Brick walls are there for a reason: they let us prove how badly we want things. Randy Pausch

São 14! Recebi 14 e-mails pedindo para assinar uma petição/manifesto online em defesa da língua portuguesa contra o acordo ortográfico. Sim, podem confirmar, é mesmo assim que está escrito. Para além da avalanche de e-mails, tem sido comum encontrar este apelo nos mais variados blogues e fóruns. Muitas vezes, o texto que funciona como repto está repleto de erros ortográficos, falhas gramaticais e deficiências de pontuação.

Será uma sorte se não encontrarmos um “ke”, “bué” ou “looool” pelo meio.

Sou sincera… Não me choca que seja admissível escrever óptimo ou ótimo. O mais importante será perceber que ambas estão correctas e que a primeira corresponde a português de Portugal e a segunda trata-se de uma evolução para o português do Brasil. É quase como escrever New York ou Nova Iorque – mas nunca Nova York.

Preocupa-me, sim, que não se saiba escrever o português, de acordo com as regras gramaticais estabelecidas, que não se conjuguem verbos correctamente e, pior, que se desperdice a riqueza de vocabulário que a língua portuguesa nos oferece.

Será relevante apontar uma distinção. Por um lado, existe um dialecto geracional, utilizado pela juventude, numa atitude clara de demarcação face aos mais velhos. Recorrer a este tipo de dialecto é importante – faz parte da idade. No meu tempo, também falava calão. Hoje em dia, apesar de ser mais cota, também falo. Tudo depende da ocasião e da pessoa com quem interajo. Pior do que dizer “janada” ou “ina man, ganda grize”, será dizer “updeitar”, escrever “checar” ou achar que não existe tradução para performance ou feedback, tudo isto em ambiente laboral.

Por outro lado, existe uma deficiência em termos linguísticos. É a utilização do “Ha-des”, do “interviu”, do “ançiosa”. Acredito que este não seja um problema etário e que existam muitos jovens que, apesar de usar calão, sabem escrever correctamente. O maravilhosos da língua portuguesa é que nunca se sabe tudo, tal é a imensidão de regras e regrazinhas (ou será regrinhas?). A aprendizagem de uma língua é um processo evolutivo, em constante mutação, que pode ser sempre enriquecido.

É preciso, não só ler mais mas também escolher literatura de qualidade – colocando de lado livros simplistas, escritos por e para burguesinhas, para que se possam pavonear, como intelectuais, em qualquer esplanada à beira-mar.

É preciso ler até ficar sem fôlego… mergulhar em mundos submersos e apenas acordar quando fechamos o livro.

É preciso escrever… escrever muito! Seja no chat, via SMS, em blogues… aproveitando todo o manancial da língua portuguesa. Quanto segundos perdemos por utilizar maiúsculas? Ou por utilizar a pontuação? Alguns dir-me-ão que é careta. Eu respondo-lhes que, não se tratando de ignorância, é pura preguiça…

(A propósito… Aconselhamos visitas à Palavra do Dia ou Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. Entretanto, ao encontrarem algum erro, por favor comentem… :D)
Na curta vivência que os módicos 26 anos me proporcionaram conheci, já, um punhado de pessoas que influenciaram a minha vida, de várias formas. Seja porque, de forma concreta, me deram conselhos preciosos ou, noutros casos, porque a sua forma de estar e de ver (e viver) a vida difere do que considero habitual. 80% destas pessoas são professores ou formadores que transmitiram bastante mais do que meros conhecimentos científicos, facilmente encontrados em livros.

Quando as conheço, admiro-me, comento com as pessoas mais próximas e sinto-me mentalmente feliz porque aquela pessoa cruzou o meu caminho. Agradeço a oportunidade que me foi dada, bebendo o momento, tentando extrair o máximo possível daquela experiência. Nos últimos tempos, comecei a fazer questão de transmitir, pessoalmente ou por e-mail quando a proximidade é pouca, a minha opinião sobre essa faceta mágica que encontro. Outra vezes, de uma forma muito simples, gosto de agradecer por as ter conhecido. Como se de um “tive muito gosto em conhecer-te” realmente genuíno se tratasse. Assim, sem mais nem menos.

É frequente notar que as pessoas ficam surpreendidas. Acredito que muitas se sintam desconfiadas. E, depois de pensar um pouco sobre o assunto, desiludi-me ao perceber que, na sociedade em que vivemos, a inveja domina o panorama, relegando a admiração para um segundo plano. Numa tentativa de ser sempre o melhor, o homem perde demasiado tempo a espiar pelo canto do olho o que o vizinho tem ou faz. Existe pouco espaço para a admiração sincera, aquela que nos ajuda a, de facto, sermos pessoas melhores, seja do ponto de vista profissional, social ou espiritual.

O mesmo acontece quando é oferecida ajuda de forma espontânea. Pouco há no mundo que se compare à sensação de saber onde encontrar ajuda quando precisamos. O mundo é, cada vez mais, um palco de meninos mimados, que guardam os lápis só para si e escondem o seu trabalho. A insegurança desponta e torna-os cegos e surdos.

Através da cooperação conseguimos – todos – resultados significativamente mais ricos. E, por gostar de encontrar ajuda quando preciso, considero que seja de extrema importância ajudar, com o pouco que sei, as pessoas que me rodeiam. Uma vezes, encontro desconfiança. Outras vezes, encontro abuso. Porque, apesar de não procurar a troca, sou pouco tolerante face a traições e omissões. Raras vezes encontro alguém que coloca o orgulho de lado e aceita.

Não pretendo com este post apelar a falsos moralismos. Acuso algum cansaço quando encontro orgulho, inveja ou desconfiança. E, simplesmente, tenho a vontade íntima de viver num mundo mais pacífico, com pessoas que tenham gosto em aprender e evoluir, admirando os seus pares, ajudando os outros com o que sabem e aceitando a ajuda quando precisam. Será utópico demais?

Read, every day, something no one else is reading. Think, every day, something no one else is thinking. Do, every day, something no one else would be silly enough to do. It is bad for the mind to be always part of unanimity.

Christopher Morley

Shannon Wheeler, «Too Much Coffee Man!»

“A felicidade é sermos felizes;

não é fingirmos perante os outros que o somos.” (Jules Renard)

Um explorador branco, ansioso por chegar rapidamente ao seu destino no coração de África, pagava um salário extra para que os seus carregadores indígenas andassem mais depressa. Durante vários dias, os carregadores apressaram o passo. Certa tarde, porém, sentaram-se todos no chão e depositaram seus fardos, recusando-se a continuar. Por mais dinheiro que lhes fosse oferecido, os indígenas não se moviam. Quando, finalmente, o explorador pediu uma razão para aquele comportamento obteve a seguinte resposta:

- Andámos muito depressa e já não sabemos mais o que estamos a fazer. Agora precisamos de esperar para que as nossas almas nos alcancem.

Paulo Coelho in Maktub

“Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico…
Esta espécie de alma…
Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã…
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã…
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo…
antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…
O porvir…
Sim, o porvir…”
Álvaro de Campos
Dizer que o português têm a mania do queixume está muito batido. Dizer que o português tem a mania de desvalorizar e rebaixar quem o rodeia para se sobressair também está muito batido. Mas não consigo evitar escrever sobre algo que considero demasiado repetitivo. E aborrecido. O português, mais do que enaltecer a sua profissão, tem o hábito recorrente de denegrir a profissão alheia. Quando fala de si, habitualmente utiliza uma de três estratégias: 1) diz que trabalha durante imensas horas e o chefe é um abusador (“eu sou mais mártir do que tu”), ou 2) refere todos os projectos, os existentes e os sonhados, ofuscando sem piedade a pessoa que está à sua frente (“eu tenho um emprego mais interessante do que o teu”), ou 3) não fala de si, optando por criticar sem qualquer fundamento a actividade do seu próximo.

Transcrevo, em seguida, alguns exemplos da 3ª estratégia:

- Sou professora. “Professora? Ah, isso é que é ter boa vida! Part-timezito com uns miúdos, férias à grande! Sim senhora!”
- Sou bancário. “Bancário? Ah, que coisa mais aborrecida, trabalhar num banco? Que cinzentão!”
- Sou médico. “Médico? Muito bem, ordenados chorudos, trabalha 2 ou 3 horas por dia enquanto os seus doentes agoniam-se à sua espera! E ainda por cima deve ter a mania que sabe muito, só porque seguiu medicina! Pfff!”
- Sou deputado. “Deputado? Ah, grandes vidas! Com que então temos o factor cunha a funcionar, hein? Ehehehe! Quem me dera a mim, ganhar bem e não fazer nenhum!”
- Sou advogado. “Advogado? Ah, desculpe, Xôtor Advogado! O Xôtor tem muito bla bla bla… Já vigarizou muito hoje, Xôtor?”
- Sou marketer. “Marketing? Meia dúzia de chavões, algumas frases feitas, fotografias bonitas. Sim senhor, para além de passar a vida a pensar nos prémios, faz alguma coisa de útil?”
- Sou delegado de propaganda médica. “Delegado de propaganda médica? Upa upa! Passar o dia a passear, carrinho confortável, algum bla bla bla, impingir medicamentos aos médicos através de subornos… Ricas vidas!”
- Sou engenheiro numa empresa de hardware. “Hardware? Que coisa mais cinzentona, que enfado deve ser! Ainda por cima, deve ter a mania que sabe muito, só porque estudou no IST!”
- Sou fiscalista. “Fiscalista? Ah, vai desculpar-me, mais acho essa matéria extremamente chata. Como é que aguenta?”
- Sou auditor. “Auditor? Ah, é daqueles que tem um lapinhos azul e andas a fazer contagens? Mas o Gervásio da reciclagem não consegue alcançar os mesmos resultados?”
- Resolvi voltar a estudar. Estou a tirar uma licenciatura. “Licenciatura? Mas porquê? Não sabe que o país está cheio de desempregados licenciados?? A não ser que só lhe interesse ter o canudo…”
- Estou a fazer uma pós-graduação. “Pós-graduação? Ah, estava com saudades de ter umas aulitas, é? Aquilo faz-se muito bem, é só estar presente nas aulas, cativar os profs e está feito!”
- Estou a fazer um mestrado. “Mestrado? Isso serve para quê? É muito teórico, isso não interessa para nada!!”
- Estou a fazer um doutoramento. “Dout… quê? Mas não tem um curso?”
E a lista não tem fim.
Lanço um desafio. Dispam-se de preconceitos. Tentem perceber o porquê da pessoa que está à vossa frente ter gosto na profissão que tem. Ou o porquê de ter decidido voltar a estudar. É um sinal de inteligência. Porque cada um de nós não se torna mais burro porque quem nos rodeia evolui, mas sim porque se acomoda e critica, sem sequer ter uma atitude reflexiva.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

«Constituição íntima das cousas»…
«Sentido íntimo do Universo»…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

Alberto Caeiro

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