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Peguemos num indivíduo que está a fazer um doutoramento. Sempre que encontra um amigo do tipo emplastro vai-mazé-trabalhar-comás-pessoas, diz que faz investigação científica e, sem pudor, tenta explicar os contornos da sua carreira. A coisa até é simples: lê-se, têm-se ideias, lê-se um cadinho mais, consolidam-se as tais ideias, que originam um modelo. Este modelo pode complementar o conhecimento já existente ou, ainda melhor, romper com a normalidade.

Depois, é sempre necessário testar o modelo. Quer sejamos mais para o lado positivista (que é como quem diz “quantitativo”) ou quer abominemos completamente esse lado (seremos fãs de estudos qualitativos), convém que haja uma comprovação empírica da ideia que propomos. Podemos, ainda, ser uns gandas malucos e optar pelo campo mais conceptual da coisa, na pura da abstracção. Na maior parte dos casos, no que diz respeito aos cientistas sociais em início de carreira, o pragmatismo é a palavra de ordem.

Está tudo pronto, escrevemos um artigo. E submetemos a uma revista científica. Parece simples, certo? Desenganem-se. Ora, imaginemos que um jornalista português tem um artigo que, na sua opinião, é merecedor de um Pulitzer. Onde vai publicar: no New York Times, no Expresso ou na revista do Correio da Manhã? Basicamente, publica onde deixarem… Na academia (isto soa mesmo a presunção), há uma classificação entre A e D, sendo que as revistas A têm uma taxa de rejeição de 90%.

Mas, quem rejeita? Porque somos uma malta que aprecia a justiça e estamos aqui porque queremos gerar conhecimento, os nossos artigos são avaliados pelos nossos pares. Podemos receber uma rejeição, mas geralmente vem acompanhada de feedback precioso. E a carreira de investigação científica faz-se assim: estudando, publicando, espalhando o conhecimento, com o objectivo de tornar o mundo um lugar melhor (bonito, não é?).

Quando estamos na posição de enviar um artigo (ou, em linguagem anglo-saxónica, um paper), invariavelmente achamos que os reviewers (quem revê o artigo) são umas bestas que não perceberam nada do que queríamos dizer. Mas, depois, há o outro lado da barricada: quando somos nós que revemos o trabalho de alguém.

E, nesse momento, não deixa de ser curioso que nos sentimos investidos do peso da responsabilidade: decidir se um estudo é publicado ou se vai ser apresentado em conferências, por exemplo. Depois, pensamos que ainda somos raia miúda, que não vamos rejeitar ninguém.

Até ao dia em que nos chega um texto dizendo que se a malta do marketing recorrer às bases da teoria de gestão do terror vão conseguir vender mais Bio Fuel. Ou seja, se um indivíduo for forçado a pensar na sua própria morte, terá mais tendência a consumir um combustível amigo do ambiente, mas desde que a campanha se focalize nos aspectos materialistas da vida.

Ahn?!

Depois ainda se queixam porque levam um reject.

Ou pior: queixam-se porque o resto do mundo não nos compreende…

A EMAC já lá vai, estou de regresso ao meu poiso. Digamos que trago um gosto doce, de quem fez aquilo a que se propôs. A minha estreia nas sessões de competitive papers foi na passada 4ª feira: a sala estava cheia, questões foram colocadas e foi uma pena não ter mais tempo disponível para discutir o tema.

O momento alto?

Ter este senhor na sala, durante a minha apresentação. Segue o cumprimento introdutório a uma de duas perguntas difíceis que me fez:

Congratulations, this is a very interesting topic and what you have here is a nice piece of research.

E pronto, estive este tempo todo a tentar recuperar.

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Escandalosamente copiado daqui.

Depois de passar a manhã inteira a treinar ainda tive tempo para me atrasar. Sou alérgica a atrasos: não gosto de esperar e, por isso, faço um esforço para chegar a horas aos meus compromissos. No entanto, ando sempre a correr e não conto com algum imprevisto: a minha veia de economista acredita num mundo ceteris paribus.

Para mim, o eléctrico teria uma frequência semelhante ao metro de Lisboa. Engano meu! O registo era entre 12h30 e as 13h, e eu cheguei depois das 13 horas. À saída do eléctrico, uma senhora com os seus respeitáveis 50 anos, envergando uma t-shirt de cavas com o Che e umas jeans pretas, mete conversa comigo. Um grego, ali por perto, junta-se à conversa. A minha experiência de iniciante leva-me a pensar que são estudantes que estão a chegar fora da hora: os profs estão todos lá, não se atrasam.

Antes da sessão de boas vindas estava previsto ser o almoço. Cometi o erro de me sentar na mesma mesa da senhora: conclusão, fiquei numa mesa de profes. E daqueles bem snobs. Pelo menos o grego fez o mesmo que eu e, lá para meio do almoço, fomos conversando sobre turismo e viagens. Eu passei a ser a lunática que foi até à Croácia, de carro, sem GPS nem hotéis marcados.

Brincámos com as semelhanças entre Portugal, Itália, Grécia, Espanha (já apelidados de P.I.G.S.), principalmente quando alguém resolve reparar que estávamos com um atraso de 5 minutos e pretendia saber se também iríamos terminar 5 minutos mais tarde. Atraso de 5 minutos? Pfff, espera só pela EMAC a realizar-se em Lisboa em 2012 e depois logo falaremos do que são atrasos.

A apresentação correu bem, muito gaguejos num inglês mal amanhado. Quando as minhas expectativas não são muito altas, é mais fácil lidar com falta de perfeição. Toda a gente acha o tema muito interessante e, aqui entre nós, acho que é o meu principal trunfo. Para além da minha apresentação, também falámos de consumo compulsivo e práticas de consumo pouco éticas, como downloads ilegais, por exemplo.

A malta belga está em peso, assim como os holandeses e alguns alemães. Para além dos europeus, sei que também está presente uma rapariga que vem da Índia, que meteu conversa comigo por achar que devíamos ser conterrâneas.

Amanhã é altura de relaxar um pouco e há um jantar de confraternização. Ainda não fui ver nada da cidade: andar sozinha é mesmo muito aborrecido. Mas até agora estou a achar tudo muito calmo e a cidade é bastante acolhedora. O meu orientador chega amanhã e o resto malta na próxima 3ª, dia de greve nacional em França.

Sentimento do dia: Menos uma!

Quando alguém que dorme cerca de 5 horas e acorda cheio de sono mas com uma pilha de nervos por causa de uma apresentação, deve encharcar-se de cafeína ou tomar um calmante?

:]

(Tão cedo não se livram deste tema…)

Em contagem decrescente para a 1ª apresentação, cá estou eu. Viajei num planador até Bordéus e depois noutro equivalente até Nantes. Todos falam em francês comigo e eu aqui ando a carpir as mágoas de ainda não saber dizer muito mais do que Je ne parle pas français. O idioma parece-me simples e acho que com alguma persistência lá chegaria. Mas por enquanto, terei que me desenvencilhar e fazer figas para encontrar franceses que também falem inglês.

O hotel tem wi-fi gratuito e o Skype está a funcionar entre utilizadores registados. Ainda não consigo telefonar para telefones fixos, mas enquanto puder comunicar com o meu Dio, fico mais animada. E não é só ouvi-lo mas vê-lo também, graças ao pikanino Eee!

Nada de mais interessante a assinalar, apenas que passei a manhã assim… e que agora ando a girar ao contrário, mas para ver se o tempo passa um bocadinho mais depressa.

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A apresentação ganha forma e eu começo a ficar entusiasmada. Sinto que tenho coisas para dizer que têm interesse e entrei em estado de fluxo. Uma vez mais, sinto que precisava de mais tempo disponível. Mas, o problema é que só consigo trabalhar bem sob pressão.

A história da minha vida. Sempre em correria, mesmo quando não é preciso.

Haja paciência.

… é ver as tags do blogspot transformadas em categorias desde que migrámos para wordpress. Isso, e ter a casa a parecer um autêntico acampamento de ciganos, dado que não sei que roupa hei-de levar. Eu que gosto de viajar só com bagagem de mão, escova de dentes, muitas T-shirts e um par de calças (as que vão vestidas).

Ah. Os fatos – velhos, velhinhos – também agradecem um pouco de sol para afugentar a naftalina.

Pronto. Era só para ficar registado que ainda não colapsei. Ainda.

Pelo menos, enquanto der para ir correndo e escrevendo, escrevendo e correndo, não estou muito mal.

Acho que o que eu preciso mesmo é de boa música. Daquela que nos põe o traseiro a mexer e nos faz sentir com a auto-estima nos píncaros.

Muito ocupada, mas não resisto a partilhar estes bitaites sobre a vida amorosa de um cientista. Para mim, a melhor resposta é mesmo esta:

Eu acho que o Einstein era menino para se “esquecer” da função física se uma função diferencial lhe acometesse a mente.

Acho que o Darwin deveria supre activo para melhorar a evolução. Talvez tentasse variadíssimas posições e situações para estimular a variedade.


O Custeau fá-lo-ia, garantidamente no mar.


O Pasteur, só depois de devidamente limpo e esterilizado. Ele, a companheira, a cama, o quarto e, provavelmente, em ambiente de subpressão com entrada Eppa.


O John Watson, em espiral. E sempre, duplamente.


O Descartes pararia para pensar, cogitar. O Damásio nem pensaria.


Platão fá-lo-ia atrás de um lençol iluminado – para projectar as sombras.


Arquimedes numa banheira.

Maxwel em saca rolhas

Pierre Curie… por rádio (hoje, talvez internet)


Mas o mais explosivo, sexualmente seria, sem dúvida, o Nobel! Verdadeira dinamite.

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Dói-me a alma sempre que vejo os stats do blog. Mais do que nas ruas da amargura, andam mesmo muito próximos da crosta terrestre. E ando com uma falta de vontade de escrever incrível, o que transforma isto tudo num círculo vicioso sem saída aparente.

Tenho que preparar a minha 1ª apresentação, que vai ocorrer já no próximo Domingo. Dizem eles que: The colloquium provides outstanding doctoral students in marketing who want to pursue a career in academics with an opportunity to discuss their dissertation research with other doctoral students and leading academics in the field of marketing. Mas nenhuma destas palavras me conforta o ego: sou pouco sociável e não gosto de estar no palco. E tudo piora se for para falar num idioma diferente de português.

Mas é assim a vida. Tem cuidado com o que desejas, pois pode vir a concretizar-se. Se fosse um projecto falhado, estaria mais que deprimida, mas como é algo alcançado, fico com dor de barriga. Viram que quase rimei? Ando inspirada, não haja dúvidas quanto a isso.

O meu tema dá-me pica: vou falar de consumo sustentável. Com isto, tenho a pretensão de contribuir um bocadinho para um mundo diferente, melhor do que aquele que me rodeia. Gosto de acreditar em coisas utópicas, já estão a ver, não é? Mas tentar não custa. Cruzar os braços e virar as costas, conformada com o que vejo, é que não é solução.

Entretenho-me com o powerpoint. Já não faço contagem decrescente e tento ignorar as formigas que teimam em passear na minha barriga de menina de 8 anos, que foge sempre que tem que ir à escola. Curiosamente, com a escola já posso eu bem… mas conferências… ai.

Que sera, sera... Whatever Will Be, Will Be…

O que lá vai, lá vai. Esquecemo-nos depressa das angústias do passado. As alegrias ficam marcadas, mas ganham um tom de marca d’água, como se tratassem de algo que fosse suposto acontecer. Ainda assim, é importante pegarmos nessas recordações, porque nos dão ânimo para o presente.

Já passou 1 ano. E é bom olhar para trás, relembrar o que me preocupava nessa altura: defender a tese, sob pena de não conseguir inscrição no programa doutoral a tempo. E, passado 1 ano, cá estou. O meu cenário pessimista não se concretizou, e o optimista está mais brilhante do que o esperado.

Mais uma prova de que não vale a pena estar demasiado ansioso e preocupado com o futuro. A pouco e pouco, com esforço e dedicação, tudo se vai construindo.

E por falar em dedicação… a reformulação da proposta aceite pelo doctoral colloquium da EMAC não se faz sozinha. Até já tentei o processo de osmose, posicionando o portátil em cima de uma tese de doutoramento na zona com mais livros da biblioteca… mas nada. Por isso, mãos à obra.

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Quase tão bom como receber uma carta de amor…

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… é pura coincidência. :mrgreen:

Sou da opinião que deveria haver eleições anualmente. Ou, pelo menos, de 2 em 2 anos, vá. Se assim fosse, não tenho dúvidas que tudo rolasse com mais agilidade. Basta observar o que se passa em tempo de eleições. 2009 é o ano, e eles já começaram a pavimentar ruas, a tapar os buracos, a arranjar os jardins, numa lufa-lufa que quase vale pela inacção do restante mandato.

Com o governo passa-se o mesmo. Independentemente da minha opinião sobre o sr. Eng. e respectivo desempenho, considero uma tremenda falta de ética que se avance com determinadas medidas de cariz mais populista, mas nem por isso menos admiráveis, nomeadamente no ano dourado. Dourado para os eleitores, claro está, que vêem algumas das suas reivindicações resolvidas.

Uma das medidas que fará com que, com alguma probabilidade, venha a votar neste governo é a homologação do Estatuto do Bolseiro de 2008. Sim, foi apenas em 2009 que este estatuto foi homologado. Mas, como estamos em ano de eleições, irá ter retroactivos até Maio de 2008.

O regulamento anterior, para além de outras situações pouco lógicas, definia que um bolseiro de investigação é obrigado a trabalhar em exclusivo no seu plano de doutoramento. Pode acumular com outras actividades paralelas se estiverem relacionadas com o seu plano de doutoramento ou se se tratarem de actividade docente. Mas… e há sempre um mas, veriam o montante auferido ser deduzido da bolsa. Ou seja, estaríamos a trabalhar para aquecer. Se considerarmos impostos, a situação piora, dado que a bolsa é isenta de IRS mas o rendimento de trabalho dependente não.

Então, vejamos a seguinte situação. Um bolseiro tem uma actividade precária, durante 4 anos no máximo. Neste período, o seu objectivo é, não só ter o grau de doutor, mas principalmente começar a construir uma carreira a pensar no futuro. E isso passa por apresentar resultados da investigação em conferências, publicar artigos em revistas científicas com arbitragem pelos seus pares e, eventualmente, dar aulas. Sim, disse bem. Dar aulas. Um bolseiro que seja convidado para dar umas horas por semana, mesmo que veja a sua bolsa ser reduzida, aceita esta situação, dado que está a investir no seu futuro.

No entanto, na prática o que acontece? A FCT poupa o dinheiro que deixa de pagar ao bolseiro, a faculdade continua a receber os 2.750€ anuais por cada bolseiro, e o bolseiro… ou fica só com a bolsa e recusa dar aulas, ou então aceita e é prejudicado. Ainda existe a terceira alternativa: aceitar trabalhar de borla. Ou então manter as duas actividades de forma paralela, fazendo figas para que não haja nenhuma auditoria.

E é assim que se incentiva a ciência em Portugal. Dizendo às pessoas para que estejam sossegadinhas, que não trabalhem mais do que devem, e nem pensem em ir a mais de uma conferência por ano. A realidade é que se temos mérito e conseguimos ter artigos aceites em conferências internacionais, muitas vezes sai do nosso próprio bolso: os 750€ para as conferências de pouco valem, quando as inscrições ultrapassam os 500€. Para além disso, desde 2002 que as bolsas mantêm o mesmo valor. Não há cá subsídio de férias nem subsídio de Natal, coisas de gente fina. Não há subsídio de desemprego. Apoio da segurança social? Sim, mas equivalente ao salário mínimo nacional.

Ninguém disse que esta era uma via fácil. Nem segura. A maior parte das pessoas que opta por fazer um doutoramento, se ainda não for docente, fá-lo por amor à ciência e acredita terminantemente que o futuro irá compensar o investimento. Mas muitos há que não se arriscam. Outros que optam por rumar para fora do país.

Eu, cá por mim, estou em regime de exclusividade desde Outubro. Mas €€€, nem vê-los. Rendas, contas, alimentação… como gerir tudo isto entretanto? Tenho um artigo, baseado na tese de mestrado, aceite numa das 3 conferências com mais prestigio na área. Para além disso, tenho o projecto de doutoramento aceite para o colóquio doutoral na mesma conferência. No verão, um convite para participar num curso da EDAMBA (European Doctoral Programmes Association in Management and Business Administration). E, ainda por saber os resultados, mais duas candidaturas à conferência da academia de marketing britânica.

Participar neste tipo de eventos significa apresentar os resultados da investigação à comunidade científica. Significa saber o que está a acontecer, significa fazer networking com potenciais parceiros de investigação. É esta a nossa carreira: investigar, publicar, partilhar. Para que o mundo evolua. Desengane-se quem pensa que somos uma corja, ou pior, um bando de lunáticos, que só acha piada ao trabalho intelectual e pouco sai da biblioteca ou laboratório. E, para provar isso, nada melhor do que este evento, uma iniciativa do Programa Marie Curie.

Parafraseando o humorista de serviço: Como ninguém se consegue preocupar 24 horas por dia, poderá usar os ensaios para fazer um “sleep on it” (Snoopy et al, 1993) para abordar o problema no dia seguinte com outro estado de espírito (em geral não resulta, mas o ensaio é fixe à mesma).

Entretanto, enquanto há eleições e não há, passem por aqui e assinem a petição. :)

estamos a quantos?

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