inverno-rigoroso

Quando tomamos o pequeno-almoço juntos, invariavelmente falamos do que temos para fazer nesse dia, espreguiçamos a preguiça que ainda teima em aparecer e fazemo-nos à vida, que o sr. maquinista não espera. Mas hoje foi diferente. Ainda estava escuro lá fora e, logo pela manhã, por entre uma caneca de leite, torradas e fruta descascada à pressa, o tema do dia foi a crise em Portugal.

Por defeito profissional, somos aquele tipo de aves-raras que tem um ficheiro excel onde vamos anotando as despesas. Diz o responsável  por esse pelouro que a plataforma de internet banking é uma ajuda preciosa.  O dito ficheiro está organizado por categorias, tem gráficos de evolução, um orçamento anual e os respectivos desvios face ao que foi planeado. É um documento meio geek que nos ajuda a planear os trocos. Tentamos sempre ser pessimistas durante o orçamento – e o resultado de 2008 foi mais à larga do que estava previsto.

Para 2009 já traçámos as entradas e as saídas previstas. Mas o problema começa quando existem umas certas e determinadas pessoas que nos querem desviar para a má vida… E desta vez começámos já em Janeiro com alguém a querer dar uma machada nos nossos rendimentos. É nesse momento que começamos a fazer contas à vida e a pensar em como é que esta crise – que desta vez parece ser mesmo a sério – nos poderia afectar.

Começámos com uma visão um bocado simplista da coisa: estamos em crise, e como tal, as empresas querem cortar nos custos, pelo que dificilmente haverá aumentos salariais, ou pior, começam a surgir despedimentos. As pessoas, porque têm menos rendimento disponível, começam a cortar nas despesas. Ora, se as pessoas compram menos isso significa que as empresas vendem menos. E se vendem menos, podem fazer duas coisas: por um lado, começar a baixar os preços para conseguir vender um pouco mais e por outro lado, insistem na preocupação com os custos, cortando outra vez nos custos com o pessoal. É um ciclo vicioso. Entra, então o Estado, com as grandes obras públicas – vulgo, gastar dinheiro – numa tentativa de estimular a economia.

Os primeiros sinais da crise estão a dar ares da sua graça: descida dos preços dos combustíveis (não só pela diminuição da procura, mas principalmente pelo ajustamento mais do que premente do comportamento puramente especulativo do passado recente) e descida das taxas de juro (para estimular o acesso ao crédito por parte do tecido empresarial e, por outro lado, promover o consumo mais do que a poupança). A taxa de inflação também está a descer, fruto da desaceleração da economia, e alguns economistas falam inclusivamente do risco da deflação (descida generalizada dos preços), algo que à partida poderia parecer bom mas que teria os efeitos catastróficos já referidos.

Como será, então, 2009? Para quem tem um emprego minimamente seguro, não nos parece que seja problemático. Todas as descidas que referimos anteriormente são vantagens e não ameaças. E a partir do momento em que vemos uma colega a oferecer um Panerai (que, para quem não sabe, é um relógio muito panisguinhas, cujo preço é um autêntico enrab…ço) ao marido, só podemos suspirar de alívio. Ainda assim, gostamos de traçar cenários, incluindo uma hipotética falência do próprio Estado. É que nada nos garante que haja mais um ou outro escândalo financeiro que transforme esta crise numa autêntica depressão colectiva. Por vias das dúvidas, talvez seja melhor começar a poupar uns trocos para o Xanax.