Sou um pouco anti-modas. O 1º convite que recebi para aderir ao Facebook tem mais de 2 anos. Para mim, era mais um Hi5 ou um LinkedIn (que também demorei a aderir e depois até se traduziu em propostas de emprego). Mas acabei por criar uma conta no Facebook. Achei que seria útil em termos de pesquisa científica, dado que poderia ser interessante estudar a associação entre redes sociais, comportamento do consumidor e consumo ético. Pelo menos foi o argumento que encontrei para escapar à dissonância cognitiva.
Inscrevi-me e fui coleccionando amigos. O meu critério foi convidar pessoas que conheço pessoalmente, tendo apenas 2 excepções de amigos da blogosfera. Fui pro-activa e enviei convites para quem fui encontrando, através de e-mails ou de amigos já seleccionados. Cumpre-se a regra dos 80-20% em termos de enviar/receber convites. Convidei gente que não posso ver à frente, pessoas que só vi uma vez, pessoas com quem estou regularmente, amigos, familiares. Recebi convites de quem não me dirige a palavra há anos ou traiu a minha amizade. Mas agora somos de novo amigos, tudo à distância de um simples clique.
Esta lógica de coleccionar amigos, quando eles nem se aproximam da verdadeira acepção da palavra, tem a meu ver, pelo menos 2 explicações. Voyeurismo porque assim podemos cuscar a vida alheia e Status porque podemos demonstrar o quão sociáveis somos e o que andamos a fazer na vida. Simplista? Talvez.
Mostrei algumas fotos à minha mãe e tentei explicar-lhe o que era o Facebook, com recurso a termos tais como “plataforma”, “amigos”, “fotos”, “pensamentos”, “ferramenta” e “comunicação”. Mas o seu pragmatismo deixou-me sem palavras: é uma coisa onde as pessoas vaidosas dizem o que têm feito na vida para outras pessoas saberem.
Pois. Basicamente é isso mesmo. O marido ajuda e exemplifica com o factor sexo: a vaidade é algo expectável e desejável no sexo feminino, mas quando um homem tem Facebook e só coloca fotos dele, isso pode significar que é um vaidosão meio gabarolas. Ou então não, e é apenas uma teoria sem dados empíricos para comprová-la ou refutá-la.
Pior do que estes são os que enviam posts de difícil compreensão à velocidade do Twitter. Pior se for sobre política. O abençoado botão de esconder ajuda-me a evitar estes amigos que, na maior parte dos casos, são igualmente chatos tanto no mundo virtual como no real.
Depois há os viciados em questionários. Querem saber qual é o marreta mais parecido consigo, que peça de roupa os representa, quando vão casar/engravidar/morrer. Ao reparar na imensidão de questionários que existem, fiquei com curiosidade para perceber por que razão alguém se daria ao trabalho de construir tais questionários.
O que aguçou o meu interesse foi o pedido de autorização que o Facebook envia para a aplicação aceder aos nossos dados. Encontrei a resposta aqui. Resumidamente, o criador do questionário tem acesso a todo o tipo de informação que temos não só no nosso perfil mas também acede à informação das pessoas que temos na nossa rede. E isto acontece com qualquer aplicação, desde questionários até aos jogos.
Claro. Tinha que haver segundas intenções algures por aí.
E é aqui que entra o factor privacidade. Apaguei todas as aplicações e subi o nível de privacidade para máximo. Não gosto de passar por parva. Depois, passei à criação de grupos, para gerir o acesso à informação que publico. Ou seja, na prática, tenho um grupo de pessoas que eu escolhi que nunca há-de ver o que escrevo na minha parede, apesar de serem meus amigos. Criei ainda outro grupo de pessoas, ainda mais restrito que o primeiro, que não vê as fotos que publico. Se quiser publicar fotos de outras pessoas que não têm Facebook, tenho o cuidado que apenas liberar o acesso para as pessoas em quem confio. E depois, se há alguém que demora uma eternidade para dar uma desculpa esfarrapada para não ir a um evento organizado por mim mas depois aceita de imediato o meu convite enviado há meses só porque estão lá fotos desse evento… bom, então essa pessoa tem que ver as fotos através de um outro seu amigo, porque vai ter esse álbum bloqueado.
Alguns de nós têm necessidade de dizer o que andam a fazer na vida, seja através do Facebook, blogues, etc., e outros são bastante mais castos nesse domínio. Isto é um facto. Mas não critico esta vaidade desde que seja equilibrada. Acredito mesmo que o Facebook ajuda a estimular a comunicação com pessoas que estão mais distantes: exemplo disso é a troca de mensagens com uma colega da Índia que conheci em Nantes e re-encontrei em Leeds, acompanhar o crescimento do filho de alguém que está longe, ou até ouvir o Malhão cantando por vietnamitas na lua-de-mel de alguém que conheci num evento e não houve tempo para estabelecer uma amizade. Ou, simplesmente, conversar mais, interagir mais, conhecer mais.
De qualquer forma, sou contra a cusquice pura. Se queres saber o que se passa, também tens que partilhar um pouco. E, já agora, ser mesmo um amigo. Caso contrário, não esperes que uma plataforma tecnológica traga aquilo que tantas rareia no quotidiano: emoções positivas.
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